
Levados por mim, ao sitio cheguei com o casal de emplumados.
Haviam sido "embalados" em caixa de cartão com rasgos para respiração.
A viagem correu de bom vento, exceptuando a curva e a travagem que provocava lamento.
Alojados em casa onde vivera um cavalo, parece ter agradado, sobretudo ao galo.
Habituado às humanas gentes, estranhei e invejei a falta de bagagem, mas aguardava algumas reclamações, das patentes e precárias instalações.
Como urbano hospedeiro, ciente da dificuldade de entendimento, afoitei tímido cacarejo e mesmo um cócórejo e na volta o que vejo ?
Sacudidelas de cabeça e som semelhante ao gargarejo, não sei se de ironia ou critica pedante.
Sem WC, suite, fogão de sala e televisão, aquele aparente bem estar não era coisa de gente, carecia de razão, era de estranhar. E, sobretudo, disposição que continuava a invejar.
Lá os deixei, resolvido do sol ao luar, ir observar.
Levantavam-se com o sol. Ele de lindo e colorido rabo alçado, cocorejando segredos de intimidade a preparar-se para a prol e ela, em cumplicidade, não esquiva mas altiva, com sobranceria que até humana parecia.
Da sobrevivencia tratavam e, por aqui ou por ali, sem pressas depenicavam, e não temiam, como os humanos, o mundo às avessas.
E era o uso diário, sem terem noticiário.
A falta de conhecimento, favorecia o sentimento.
Pela saída do sol, ele, esquecendo a prol, pulava lá pelo alto, e ela ali não ficava pois qualquer som a assustava, mas pela manhã voltava.
E foi assim, dia a dia, até vir a tempestade e a ventania levá-los, com a casa dos cavalos.
A partir de então não sei onde estarão, nem mesmo se vivos são.
Sendo a vida vai e vem, bem certo é que cada um vai desejando aquilo que não tem.
Quanto mais me aproximo dos animais, mais aprendo, e os ditos humanos menos entendo.