Dará esta flor jeito
em história d'amor perfeito
Hei-de voltar
Dará esta flor jeito
em história d'amor perfeito
Hei-de voltar

O prometido é devido
Certo dia encostei meu ouvido ao teu peito e senti o tic-tac do pequeno grande coração. Perguntaste então, lá do alto da tua candura, se todos os corações batiam ao mesmo tempo.
Pese embora não batam, a voejar ficou no pensamento a ternura desse teu sentimento.
Alguém disse, falando de amor, na fronteira da ironia e do cinismo, que adorava deitar-se acompanhado e acordar sozinho.
Suponho seja o percurso usual do humano adulto e, com algum regozijo, noto ter alcançado o estagio seguinte desse culto.
Prefiro deitar-me só e só acordar, se por acaso acordar.
E tudo isto pela causa do que este meu olho vem observando e não me agrada de todo, porventura daí advindo razão de preservar o outro olho, numa vã tentativa de lhe esconder a paradoxal dualidade (crueza-beleza) que a natureza nos oferece nas suas propostas de vida.
Se não comunicarem, mantenho, pelo menos um, na virtude duma ingénua candura de juventude.
Para quem disser que não é história de amor, chamei a depor, o beija flor.
Encontrei um destes dias um sujeito que me pregou uma seca dissertando sobre casamentos.


Esta mania dos dragões deitarem fogo pela boca deixa-me perplexo. Será fantasia ? Ouvi um estrondo no jardim, acorri.
Ela estava ali, olhando para mim com todos aqueles olhos verde cinzento, sóbriamente despida, o que na foto escondi, e do penteado nem falo. Linda !!! Sorri.
Quis dizer algo fosse cativante, aquelas palavras que todos dizemos ao visitante , nada significam e ninguém ouve, mas são de bom tom.
Não expressava som. Fiz um esforço, e, sem nexo nem desejo, pronunciei: AMO-TE. Não tive outro ensejo.
Todos os seus olhos brilharam e convidou-me a sair.
Peço perdão, seria convite ou intimação ? Tive de ir.
De vontade anulada, sorri de novo e abraçados lá fomos, calçada fora em longa passada.
Quem connosco cruzava voltava a cabeça e mirava, êxtase, cobiça e inveja. Dentada de ciume jamais sentira e ninguém deseja, mas a ferroada levei e, como acontecia, não sei.
Já o passeio me cansava e não trouxera bagagem para esta viagem. Contudo... continuava sorrindo.
Para quebrar o derriço, certo do feitiço, num lampejo de razão, a custo e sem susto, perguntei-lhe então quem era, donde vinha.
Sou a morte me disse com voz de afago, venho duma estrela pra lá do sol e tens sorte, para vires comigo, eu trago um lençol.
E levou-me...


O verbo pode ser fraco, sem valor, indubitavelmente d'amor (01-03-2006)Se queres levar uma pedrinha
Tira ali da caixinha.
Quando se ultrapassou a meia idade e até a esperança média de vida humana e o vigor físico e a apetência para alguns objectivos tidos de continuidade nos dizem "parece mentira", surgem diversos problemas a resolver, entre os quais se avoluma o dos afectos.
E o mais complexo entre eles, sem dúvida, a ligação homem/mulher e tudo que ela implica, no seu vasto leque de entrega, ternura, carinho, amor e até sexo.
Encarando com honestidade a própria realidade e, sendo "realista", terei de admitir que esse afecto não poderá garantir a ultrapassagem do hoje e agora.
É um campeonato em que o jogo é hoje e, SE vencermos, tornamos a jogar amanhã, não deixando de dar merecida atenção no ênfase à condicional.
E só este distanciamento do futuro permitirá colher da fonte esse fio de prata da felicidade.
Esta reflexão brotou duma amena conversa com amiga recente, com a qual manifestamente empatizo, cuja idade poderá estar entre os 50/60, vivendo só e sentindo-se bem afectivamente, afirmando que, se porventura tivesse de agir nesse campo, gostaria encontrar "alguém com quem pudesse envelhecer de mão dada".
Tivera ela mais uma dezena de anos e, em silêncio, lhe estenderia a mão.
Não com aquela ideia ilusória de futuros, mas no sentido de ganhar o jogo do dia e a serenidade de espírito para tentarmos jogar e ganhar, também no dia seguinte. E assim por aí...
Envelhecer não, viver sim!!!
Mas sou louco e mais velho. Porventura por isso me caberá este discernimento.

As fotos são obséquio da Ana Honorato, "hospedeira" destas pequenas maravilhas
Para conhecer do sentido da vida, havia-me proposto chegar ao topo.
Estou cá em cima.
As expectativas foram iludidas.
Sobre a cabeça a ilusão do azul celeste e farrapos brancos esvoaçando esbaforidos ao gélido bafo do vento.
Nem folha nem fumo.
Nem árvore, nem ave, nem o seu pio.
Afinal aquele sentido havia de ter sido retirado do desafio da escalada e durante a sua superação.
Entre a pregagem das estacas devia ter dado um compasso de espera, olhando em volta, imaginado até as árvores, as aves e os seus gorjeios e talvez até flores.
Na ânsia da descoberta esqueci o sonho, abafei-o, e resta apenas o desespero de não ter caído eu, quando perdi quem me seguia.
Ali, no topo, nada mais resta.
Vou espetar a bandeira da angustia, infeliz marco da minha presença neste lugar insólito e iniciar a facilitada descida, onde encontrarei o sentido do nada.


Não resisti a colocar esta imagem.
PARA LHE VER O ROSTO
VOU TENTAR VOAR
DEPOIS VOLTO
Como prometido, voltei.
Não sendo voar tarefa de somenos, foi todavia o esforço compensado.
Cheguei ao topo em plena noite de luar.
Essa estranha força e a ligeira brisa, emprestavam brilho e beleza à moldura verde daquele rosto. Aqui e ali pérolas de orvalho.
Porque choras ? Perguntei.
Confidenciou-me ser a primeira vez a receber visita humana não hostil e tão próxima.
Havia visto outros, ao longe, montados em estranhas aves, lá onde não se enxerga o rosto.
Confidenciou também a dor da sua imobilidade, quebrada tão somente pelos fortes ventos.
E foi com sonho e tristeza que recordou os tempos em que, frondosa, abrigava os ninhos e as aves, seu deleite de então.
Confiou-me assim a sua solidão e o sonho de poder voar, justificando a forma estranha do seu corpo pelo esforço das vãs tentativas de o fazer.
Trocados os nossos pesares, aconchegámo-nos num doce e longo silencio.
Logo, logo, passada essa pequena eternidade, no afago da despedida, senti que se aproveitava do orvalho para disfarçar o pranto e já no solo deixei o meu abraço naquele tronco sofrido e rugoso, forte e sensível.
Prometi voltar para continuar a ligar a sua solidão à minha, quiçá ficar.

Esta, outra história de amor, descansava lá no outro canto desde 15-04-2007.