segunda-feira, 31 de maio de 2010

MEIO HOMEM/MEIO CÃO

Nesta simbiose e para ser justo, confesso tentei e sem êxito a metade cão absorvesse algo da do homem e a relutância demonstrada levou-me a crer que grande parte da conduta humana é facilmente descartável sem perda aparente do sentido da vida.

Sem que essa atitude do cão me fosse hostil, esforcei-me na adaptação, até porque aprecio a sua forma de levar a vida pela vida, no aqui e agora, borrifando-se no amanhã, que certamente nem pela cabeça lhe passa, e no implícito futuro que o humano não dispensa nas suas lucubrações.
Tem ele assim a grande vantagem de elidir problemas de angustia de fantasias projectadas não realizadas e na sua maioria não realizáveis.
Consegue também essa coisa mágica de não deixar atulhar o baú das memórias, retendo apenas algumas ou até substituindo-as por reflexos pavlovianos de preferência virados apenas à sua sobrevivência e subsistência, contrariamente ao homem que sedimenta e acumula as suas memórias também na maioria, por excesso ou carência, geradoras das depressões tão em moda, com seu cortejo de amargura, culpa e desespero, conhecidos corrosivos da tal de felicidade que todos buscam e poucos encontram.
Diz o povo que burro velho não aprende e, se o povo tem razão, bem feito estou, pois tarde iniciei esta aprendizagem e terei de acrescentar não ser pêra doce, em face dos seculares maus hábitos de que nos temos vindo a apaparicar.
Ainda pouco faladro e confesso isso não tem sido empecilho na minha aprendizagem, retendo bem pela observação e aqui vou confessar também algumas dificuldades ou fáceis adaptabilidades:


DESAPEGO: Usa por empréstimo, utiliza e larga, pois se, por acaso, o amanhã existir, tudo lá estará e, quem sabe, porventura surgirão outros empréstimos mais aliciantes.
Fórmula simples de eliminar a amargura da posse e sua fastidiosa conservação.
AFECTOS: Fácil a minha adaptação pois já antes ia pelo exagero.
Ternura, carência de afagos, pieguice, avidez ao toque, brincadeiras e outras mariquices, lembrando as crianças, tempo virtuoso do percurso humano.
Os meus pares, adultos circunspectos, olham-me com alguma critica e complacência, o que pouco me incomoda pois o tempo de engolir sapos já lá vai.
ALIMENTOS: Não sei bem como superar esta, mas creio que no final algumas faltas ou cedências terão de ser desculpadas. Não gosto decididamente de comer e ele, além da imposta ração, ou até pela imposição, devora, quiçá em provocação, tudo que lhe convém ao cheiro.
CHEIRO: Ah, cheira e recheira. É fenomenal. Aqui muito desejo adaptar-me porventura por ser um dos sentidos do meu agrado, tanto como o do toque.
Tenho feito algumas tentativas, quando a confiança dos meus pares mo permite.
Todavia felizes não foram e já levei um ou outro tabefe ao ser atribuído ao acto outra intenção, causa e efeito do mau feitio humano.
SEXO: Por aqui estou mal.
Certamente reprovaria se dependesse de exame.
Diria que para ele qualquer cadela lhe serve, se pudesse era actividade quase constante, e, para mim, é agradável memória que, por vezes e com razoável êxito, trago à prática desde que não haja demasiada exigência e sempre, obrigatoriamente, envolta num poderoso ramalhete de indispensáveis e complementares afectos.
MARCAR TERRITÓRIO: Actividade tão usual nele. Faladrou-me ser o seu modo de garantir que não conspurcam locais onde ele já teve alguma felicidade.
Aceito. Todavia continuo a usar o asseio e a intimidade da casa de banho, local onde a parcela de felicidade se limita ao alívio natural do esfíncter e de forma alguma preenche memória futura.
DESCANSO: Bom ! Deitarmo-nos em descontracção muscular, sobre qualquer zona, de preferência relvada e esvaziar o cérebro. Bom… nem tenho palavras.
Nem os meus pares sabem o que perdem quando deambulam nas grandes urbes apressadamente, para cá e para lá, como seres estonteados que não conhecem o rumo e simultaneamente carregam as suas baterias dos tóxicos envolventes.


E assim, esperançado que o cão perdoe a minha inépcia e me dê algum ânimo, lá vou persistindo, aluno satisfeito e assíduo.
O meu esforço é verdadeiro e até talvez consiga merecer ser cão por inteiro
Para já, estou satisfeito e desde que me afaguem com carinho, é garantido, não mordo.
Reparei agora que, contra meu hábito, espalhei-me aqui pelo teclado (outra coisa que o cão tem a sorte de não usar) e já vou nas 799 palavras, o mais extenso dos meus textos (ressalvem o lapso se me enganei, mas não conto outra vez).
Nem já paciência tenho para fazer revisão, pelo que isso sim, perdoem lá qualquer coisinha.
Ia pedir desculpa aos eventuais leitores. Lembrei todavia que conversa de louco a poucos interessa e os poucos, muito poucos, interessados, por esta altura já estarão a dormir.
Mesmo que sim, desejo boa noite e espero tenham tomado a medicação.
Já esquecia: como amo aquele cão, sem duvida isto é de amor, tem de levar flor

quinta-feira, 27 de maio de 2010

domingo, 23 de maio de 2010

Fugas

Quando se pretende fugir, por regra estão selados os caminhos de retirada.
Desesperadamente continuo a tentativa de fuga, porventura  para a frente.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Viagens


Sou, desde há muito, perseguido por um certo sonho, estranho na sua recorrência.
Talvez me traga certo acréscimo de amargura e ansiedade, decerto por mal, para quem como eu preza e cultiva a disciplina da pontualidade, .
É sempre o embarque para uma viagem, não sei qual o destino, ou talvez saiba, em que, por isto ou aquilo, de somenos e não importa, jamais chego a tempo e o barco, comboio ou avião, já fechou a porta e lá se vai sem mim, suavemente deixando o cais de embarque, de forma provocatória, gorando a vã tentativa e o esforço corrido.
Creio ser travessura da perversa mente, contra a qual não actua armadura, indo contente ao baú do meu passado rebuscar entre as muitas viagens dos meus 20 aos 50 anos e que hoje me pergunto se teriam destino marcado.
Seja como for, o troco deste sonho é o seu final feliz.
Constatar, ao acordar, a pouca relevância do meu atraso e continuar a correr o prazo.
Fico tranquilo! Voltando ao outro lado não penso naquilo e a mente matreira, a sorrir, mais meia hora me deixa dormir, compensando a noite inteira, sem o mau olhado do antes sonhado.


Pode ser falta de amor, mas porventura merece flor.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dizeres/entenderes

Tem os humanos o hábito de usar frases e rituais, na mor das vezes cujos entenderes são diversos dos literais dizeres.
Estou a recordar a história do encontro de amigos (um cego, outro paralítico):
Diz o cego: Então ? Como andas ?
Olha, é como vês, responde o outro.
Porventura é suposto conter humor do mais negro, penso eu, mas a perversa da malícia faz sorrir o ateu e dá calor à conversa, tudo entendido sem agravo ou ofensa, por conter outro sentido.
E também o olá, bom dia, não vale um caracol se o dia não for de sol.
Diz-se e ninguém ouve, sendo uma espécie de mania ou etiqueta da treta, para algo se dizer e mal não se parecer.
Mas hoje não quero ir por aqui, pois se me distraio derrapo e acabo feito trapo, sem saber o que escrever que de resto é mais do mesmo.
Quando leio que alguém tem bom coração, tenho por força de saber, do autor a profissão.
Se da saúde for profissional, fica coisa directa e bem banal: é coração de bom músculo a cumprir sua missão, mantendo a circular o liquido vital.
Se psicólogo, padre ou bom cristão, levo a coisa pro amor, compaixão ou piedade, temas que são do espírito e da personalidade e terão de ver com a mente ao invés do coração
Enfim, não quero gerar confusão por tão pouco, embora sempre tenha a desculpa do louco.
Por favor, tenham bom coração, levem isto pro humor.
Assim sendo. é amor e, como é de preceito, merece flor.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Outros afectos

Questionei certa vez um massagista acerca do seu êxito profissional.
Não podia estar melhor pois toda a gente gosta de ser coçada, foi a resposta pronta e insólita.
Acreditei no homem e na extensão do dito a outras espécies, pois até o cão, aquele amigo que com frequência visito, meu companheiro de descanso ali em baixo, não despreza e até pede esses afagos coçarentos.
Pacifica-se, aquieta-se, abandona-se e fecha os olhos deliciado.
Ora como isto dos afectos, pelo meu ponto de vista, carece de troca e não imagino aquela patorra unhenta na minha pele sensível, pergunto-me onde estará meu quinhão e concluo que o gozo provem e é proporcional à aceitação e gozo dele, vindo a troca de forma diversa.
Não é fácil a conversa.
Ainda não ladro em perfeição e não tem ele estudos linguísticos, dada a tenra idade, pelo que nos limitamos, ressalvadas pequenas e honrosas tentativas, à comunicação do silêncio.
Aí temos o precioso auxilio dos olhos, toque e atitudes, artífices eficazes da repousante e compensatória conversa silenciosa, coisa que não se obtém nesta web onde se perdem virtudes na sua virtualidade e se promovem afectos sem virtudes.













Se isto é de amor, eis a flor !




segunda-feira, 22 de março de 2010

Amigos

fotoTITA
Alguns humanos de mau carácter, fizeram o favor de me aproximar ainda mais dos animais.
Aqui lhes deixo profundo agradecimento.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Flores

Com um ponto final parágrafo, fica um ingresso gratuito ao meu JARDIM

segunda-feira, 8 de março de 2010

Asas

As tuas mãos estendidas, em busca do sol, perdidas
são asas alvoraçadas de pombas enamoradas
Levam consigo o perfume do teu corpo, feito lume
ao calor dos lábios meus quando colados aos teus,
lembrando doce sabor do nosso profundo amor
no veludo dessa pele tão suave como mel.
Tu partiste e eu fiquei mas é assim que as vejo,
levando também desejo dos beijos que não te dei

sábado, 6 de março de 2010

O peso da palavra

Fui à rua, levando um saco de palavras na peregrina ideia de as espalhar por aí e, talvez cansaço meu, pouco usual nestas andanças, notei pesado o saco e derreado o braço.
No jardim, em velho banco e à sombra amiga  da árvore,  tentei saber da causa de tal fadiga.
Entre as leves palavras de candura, ternura e com nome de flores, encontrei algumas pintadas de horrores, muito pralém da amargura, por ter ensacado a eito, sem critério na escolha ou algum jeito.
Aproveitei o remanso do momento de descanso, e, neste meu modo de louco, meditei um pouco.
Afinal as palavras tem peso, tal como as pedras, e, tal como elas, podem ser usadas das maneiras mais diversas, de formas ousadas, fagueiras ou perversas, sendo a mais gravosa o arremesso, pois uma vez atiradas ou proferidas não é possível emendar a mão, mesmo estejam prenhes de razão as desculpas emitidas.
Subsiste porém diferença.
A pedra, quando acerta na cabeça, resolve de vez o problema e, na palavra, surge o dilema: o visado pouco se rala e nisso nem fala, ou, ao invés, sente a pancada e aquilo funciona como trovoada, indutora de tensões e, em muitos casos, provocando depressões.
Bem, resolvido o mistério tenho de ir e sem favor, com critério, vou deixar aqui palavras de flor e, neste regresso, para evitar fique gente do avesso, vou espalhar todas as demais e sejam de cor, e até um raminho das que falam de ternura ou carinho, e, logo que recolha ao meu canto, vou destruir as que nada dizem e todas as que falem de amargura ou desencanto.

Fico grato por este aviso a creditar-me um pouco de juízo.





E sendo tudo isto de amor fica aqui bem esta flor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O ABRAÇO

Quando demos o abraço
de coração a compasso,
dois unidos num só traço
esquecidos do embaraço
e perdidos naquele espaço,
apertaste nosso laço
na brandura do teu braço.
E AGORA...
desfeito que foi o laço
com futuro já tão baço
vou esconder meu cansaço
no sonho do teu regaço

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Universos

Disseram-me que o universo sou eu e com ele me extingo.

Não ouso porém excluir os outros universos desta imensa galáxia e ai me redimo.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

CARDUME

Pastel de óleo sobre papel 40x30 (2005)

O cardume, exemplo de disciplina táctica no interesse da subsistência e sobrevivência do grupo, em que cada individuo conhece e cumpre a sua função, sem hesitar ou discutir.
Outro exemplo diria, que o homem geralmente não segue, sobrepondo o interesse pessoal ao da espécie
fotonotyet



Quanto aos peixes, mesmo que o impulso do instinto advenha, estamos perante um acto de amor e assim indiscutivelmente merecem a flor.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

As vestes da alma

Tem o conceito de fidelidade uma abrangência universal com raiz centrada na confiança.
Todavia, nessa matéria e em coisas de amor, compreender os humanos é missão impossível, talvez porque funcionam no contraditório, negando aquilo que anseiam e aceitando o que antes negaram.
Venho questionando, quando posso, o que entendem por traição no amor e a diversidade das respostas, valendo o que valem, cria um leque cujos limites vão, desde a entrega física a outrem, até ao simples pensamento, tão distintos entre si e na sua essência apenas representam diferentes sensibilidades de mão dada com evidente falta de diálogo e aceitação do outro.
Daqui resulta que nem mesmo em relações de comunhão e plena intimidade não é garantido nem está presente o encontro, aí onde se despem mas raramente se desnudam.
Tocam-se e abraçam-se, fundem-se, sem libertar a alma das vestes e grilhetas da memória, esse negro rio onde por vezes correm águas turbulentas do passado que, muito embora não voltem a correr, corroem o presente permitindo comparações e confrontos.
Entretanto, e apesar disso, supremo engano, são capazes de afirmar que se amam.

Ai, quem me dera voar.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Convidados


Levados por mim, ao sitio cheguei com o casal de emplumados.
Haviam sido "embalados" em caixa de cartão com rasgos para respiração.
A viagem correu de bom vento, exceptuando a curva e a travagem que provocava lamento.
Alojados em casa onde vivera um cavalo, parece ter agradado, sobretudo ao galo.
Habituado às humanas gentes, estranhei e invejei a falta de bagagem, mas aguardava algumas reclamações, das patentes e precárias instalações.
Como urbano hospedeiro, ciente da dificuldade de entendimento, afoitei tímido cacarejo e mesmo um cócórejo e na volta o que vejo ?
Sacudidelas de cabeça e som semelhante ao gargarejo, não sei se de ironia ou critica pedante.
Sem WC, suite, fogão de sala e televisão, aquele aparente bem estar não era coisa de gente, carecia de razão, era de estranhar. E, sobretudo, disposição que continuava a invejar.
Lá os deixei, resolvido do sol ao luar, ir observar.
Levantavam-se com o sol. Ele de lindo e colorido rabo alçado, cocorejando segredos de intimidade a preparar-se para a prol e ela, em cumplicidade, não esquiva mas altiva, com sobranceria que até humana parecia.
Da sobrevivencia tratavam e, por aqui ou por ali, sem pressas depenicavam, e não temiam, como os humanos, o mundo às avessas.
E era o uso diário, sem terem noticiário.
A falta de conhecimento, favorecia o sentimento.
Pela saída do sol, ele, esquecendo a prol, pulava lá pelo alto, e ela ali não ficava pois qualquer som a assustava, mas pela manhã voltava.
E foi assim, dia a dia, até vir a tempestade e a ventania levá-los, com a casa dos cavalos.
A partir de então não sei onde estarão, nem mesmo se vivos são.
Sendo a vida vai e vem, bem certo é que cada um vai desejando aquilo que não tem.
Quanto mais me aproximo dos animais, mais aprendo, e os ditos humanos menos entendo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Amor perfeito


Dará esta flor jeito
em história d'amor perfeito
do tipo Romeu/Julieta
que hoje parece treta
Hei-de voltar
e esta história animar.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Valeu a pena

Desnudo tenho andado a mergulhar no passado.
Dei com este trecho que postei faz anos e aqui deixo o LINK
É sem duvida de amor pelo que em devido tempo virei deixar a flor.

O prometido é devido

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Duas flores

O vidro da ninha máquina captou duas flores.
Teve cuidado, no enquadramento e nas cores.
E, a medo, revelou o segredo.
Uma, morta porque colhida.
Outra, sem alma, perdida !

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

simetrias

Ensaio geométrico (acrílico sobre tela 30x40, ano 2009)
SERÁ QUE VALE POR DUAS ?
E serão ambas semelhantes ?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Brumas

Tem os afectos familiares na sua génese a essencial e dependente relação de proximidade entre parentes.
Logo esse afecto não pode advir ou brotar apenas do legado de adn para aí se esgotar, resultando antes de presença, dedicação, desvelo, cedência, incondicional entrega e concretizando-se na ternura do toque.
Amor sem medida.
Espanta-me por tal tantos interessados haja nas suas remotas ascendências, endemia que por aí grassa e da qual já fui tomado, pese embora o dito espanto.
Parece grave, convindo porém não ser o meu caso. pois já deixei atrás bem claro que a parcela de adn herdada (para o bem e para o mal) desses antepassados, com quem pessoal e obviamente não privei nem conheci, vale o que vale, restando esta mórbida curiosidade de saber, nomes e datas, nascimentos, casamentos, partidas, peças dum jogo de equivalências e comparações que a hereditariedade sempre permite e de que nós humanos tanto carecemos.
Aquelas informações são alimento da imaginação na criação de cenários doutras vivências, noutras épocas, de seres para quem, apesar do legado pela natureza imposto e por eles nem pressuposto, pouca importância teria tão remoto e aleatório descendente, seja este frágil eu que um dia também entrarei nessas brumas de futuro/passado.
Assim posso dizer que o gozo deste conhecimento quase se esgota nos imaginados cenários da vida de então quão diferente da actual na medida em que o homem na sua ansiedade evolutiva, acelera, esforça e prejudica o processo.
Dizia-me um especialista em insectos que adorava a sua profissão pela perseverança daqueles em milhões de anos, ressalvados alguns ajustes ao meio, na quase imutabilidade da cena padrão das suas vidas e responsabilidade no equilíbrio do sistema.
Com o homem e por lástima é necessariamente diferente. Foi dotado da inolvidável dádiva do raciocínio, pensando, sua aparente ruína, por nada lhe parecer servir na manutenção do equilíbrio natural, exaurindo-se nas mordomias dos falaciosos confortos.
Olho o cenário dos dias de hoje, em que mal grado meu me suponho inserido, talvez por lapso sempre admissível, e munido dessa poderosa arma da imaginação, aí vou, em planado voo, a trezentos anos atrás e observo o movimento dos seres, talvez não tantos, carregando coisas sem peso e demasiado pesadas, seus eternos problemas na via do nascimento, vida e morte, afectos, sentimentos dos bons e dos maus e contudo livres da maioria dos supérfluos que a poeira dos tempos foi acrescentando, sem grande proveito, às seguintes gerações.

Será que estou com uma pontinha de inveja ?
Se é por bem, assim seja.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Pomba branca

Acrilico s/tela 30X30

Certo dia encostei meu ouvido ao teu peito e senti o tic-tac do pequeno grande coração. Perguntaste então, lá do alto da tua candura, se todos os corações batiam ao mesmo tempo.

Pese embora não batam, a voejar ficou no pensamento a ternura desse teu sentimento.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Crenças

Acrílico sobre tela (pormenor)

Falando de Deus veio o outro afirmar coisa que muitos sentiam e já os ateus o diziam.
Ser invenção dos homens que a ela se escravizaram já não colhe novidade, pois sucede a cada passo.
Do montão de seus inventos resta ao homem o embaraço e fardos de ansiedade; pelo uso imoderado e falta de lucidez, logo fica viciado, sem dar conta do que fez.
E isto fui eu lembrando ao fazer a minha sopa, sem ter com quem falar e comigo conversando, aliviado da roupa e à beira da panela, à balda nela deitando a certeza, o não sei quê, a duvida e o talvez, ou então, pelo contrário, um pouco de tudo que restava no armário.
Sorte a minha, tudo à varinha mexido, decerto vai resultar coisa boa ao paladar, mas, se acaso assim não for e se sofrível ficar, lamento não vou soltar, por não ser fã de alimento.
Na espera do borbulhar e levantar da fervura, a ideia inicial tomou conta d'aventura e, com modéstia o vou dizendo, resultou, sem mais aquela, ter quase a certeza de ser a minha panela semelhante à natureza, guardadas as proporções pois não quero confusões.
Energia lá não falta, na mistura aleatória, turbulência quanta baste e a terra giratória há milhões que faz assim, coisa boa e da ruim.
Assim tudo equilibrado, logo surgiu o traste, de barro mal amassado, embora d'homem chamado e ai foi o desastre.
Começou a destruir enquanto de amor falava e do mal se lamentava.
Foi tempero exagerado a estragar o cozinhado que não para de ferver, ficando assim demonstrada a ausência de poder, pois a haver um criador, era o supremo fulano e tanta displicência não permite invoque engano.
Pronto. Se calhar o tal tem razão, ou será outra ilusão ?
Se sou crente ? Claro ! Brota a árvore da semente.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Interrogação

Carvão sobre cartolina A4 (2009)






ASSIM NÃO TEM SENTIDO !
DE OLHOS CERRADOS E SEM FALAR
COMO POSSO VER TUA ALMA ?
FICO SEM CALMA, PERDIDO...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Auto-retrato

Acrílico sobre tela 30x40 (2009)

Alguém disse, falando de amor, na fronteira da ironia e do cinismo, que adorava deitar-se acompanhado e acordar sozinho.

Suponho seja o percurso usual do humano adulto e, com algum regozijo, noto ter alcançado o estagio seguinte desse culto.

Prefiro deitar-me só e só acordar, se por acaso acordar.

E tudo isto pela causa do que este meu olho vem observando e não me agrada de todo, porventura daí advindo razão de preservar o outro olho, numa vã tentativa de lhe esconder a paradoxal dualidade (crueza-beleza) que a natureza nos oferece nas suas propostas de vida.

Se não comunicarem, mantenho, pelo menos um, na virtude duma ingénua candura de juventude.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Nuvem

Acrílico sobre tela 30x40 (2009)






NUVEM PERDIDA


NA BUSCA DO SENTIDO DA VIDA







quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Paradoxo

Carvão e aguarela s/ papel (30x40)













Porventura sem coração



mas de flor na mão

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Vazio

Mania humana, suponho, a quantificação.
Na satisfação desse devaneio, inventam-se padrões de subordinação, complicados, por vezes, no anseio que valham aqui e noutros mundos.
Para o tempo, seja lá ele o que seja, lembrámo-nos do ilusório calendário (anos meses, semanas, dias) e, não contentes, o seu principal acessório, o relógio (então para horas, minutos, segundos).
Enfim, no olvidio da nossa poeirenta e finita existência, vamos mantendo a coisa afinadinha, no fundado temor de deixar escapar alguns preciosos segundos no turbilhão dos milhões de anos da presença humanoide nesta bolinha azul.
Não ficando por aí, os padrões surgiram também para medir, pesar e tudo o mais.
Tem de bater certinho para ninguém ser enganado.
Parece resultar isto do próprio convívio humano e nem sempre é mera cusquice, antes mentalidade implantada (quanto anos tens, quanto ganhas, quanto medes, quanto pesas e por aí).
No amor e noutros similares afectos esbarramos, pois o padrão ainda não foi consensual e não passamos de meras tentativas susceptíveis do fácil contraditório.
És o amor da minha vida, amo-te tanto e outros, não passam de padrões individuais, arrastando consigo a enorme dificuldade comparativa do libido e das almas de cada ser.
Quebra-se assim o hábito pelos sentimentos e lá se vai o monge, dando o insólito lugar à perplexidade.
Porventura será que tudo isto terá real importância quando a ciência nos demonstra que afinal a aparente matéria e tudo o que nos rodeia não passa do vazio ?
E até os nossos próprios pensamentos ocorrem em zonas vazias do nosso cérebro ?

Afinal, olho a tela e desespero, por parecer a semente verdadeira e inteira e trazer no ventre a flor e o fruto, dela brotando a vida e o amor e também a dor e o luto e, no evoluir desta emoção restar apenas ilusão.
Acrílico sobre tela-2009 (30x40)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Tentáculos

Obséquio de gifmania
Para quem disser que não é história de amor, chamei a depor, o beija flor.
A plenitude do amor será o conjunto duma plêiade de sentimentos, tentáculos, como se de um polvo se tratasse.
O maior e mais possante é, sem duvida, a amizade, talvez até por ter de ser vivida a dois ou mais.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Casamentos

Obséquio de gifmania
Encontrei um destes dias um sujeito que me pregou uma seca dissertando sobre casamentos.

Na sua rude forma de encarar o tipo de amor que aí se enquadra declarou que, a curto prazo, e dissipadas as névoas do romantismo, a união se assemelha a violação consentida.

Foi porém mais sensato e menos cínico ao afirmar ser possível existirem ligações duradouras, nesse vinculo contractual, sendo apenas necessária muita paciência e casas de banho separadas.

Estou sempre a aprender.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Intenções

Na busca da minha própria serenidade, assentei meus conceitos de amizade e amor e as suas respectivas gradações.
Continuo a distingui-los na essência; amizade, exige troca, e amor, quando bate verdadeiro, é pura dádiva, não carecendo sequer da reciproca.
São dois sentimentos extremamente semelhantes e motores de alguma confusão, ambos portadores da capacidade de se transformarem um no outro pelo faiscar de um qualquer impulso especial.
Se calhar já a muitos sucedeu a amizade profunda abrir a porta ao amor e também o profundo amor esbater-se em sedimento de amizade.
Depois existem algumas grandes emoções/sentimentos agregados.
Destaque à paixão, essa doença do amor, vírus de curta duração e se metaboliza na maior parte dos casos em ódio ou, mais curioso ainda, em absoluta indiferença.
O ciume também faz das suas, tanto num caso como noutro e acaba por mostrar a insegurança de quem o sofre, dissipando, embora lentamente, quer a amizade quer o amor.
Para complicar este fado existem seres a refutar a amizade, pelo receio dela venha a emanar uma parcela de amor, ou, mais grave ainda, pela parca dádiva disponível nas suas almas.
Seres de almas cativas, pobres e sobretudo inseguros.
Passam sequiosos e de copo na mão ao lado da fonte da vida, hesitando em beber e esquecendo que daquela água jamais poderão sorver, se a deixarem correr.
Não correm riscos, não podem colher.
Passam então a outra etapa com a sombra da culpa a acompanhar o restante percurso até ao grande portal de saída.
E sei do que escrevo porque já tentei estabelecer amizade sem êxito, reaprendendo o que já sabia: às melhores intenções correspondem, por vezes, as maiores decepções.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Monogamia



Quando os meus cantos me enfadam ou repudiam, fujo, simulando abandono e procuro conforto e consolo isolado do bulício citadino, especialmente do irritante som das tairocas da vizinha de cima.
Ali, entre canseira e repouso, trabalho a terra a meu modo, afago as plantas, observo a natureza.
Deleito-me na observação de enorme cedro e sua frondosa ramagem, acobertando piscos, pardais, melros, rolas e, pasmo, até andorinhas, estas que habitualmente preferem os beirados.
E todos aqueles seres nos seus gorjeios e vai e vem na tarefa de abastecer os lares de conforto e alimento, vivendo ali em parceria, fazem do cedro como que um bloco de apartamentos da grande cidade, talvez até mais urbano.
Algo me intriga. As rolas, habituadas às minhas visitas, observam-me, aproximam-se, perdendo a sua timidez e talvez curiosas de existirem humanos pacíficos.
O casal mantém-se unido por mais de um ano numa perfeita união monogâmica.
Colhi alguma informação e fiquei sabendo que ambos cuidam do "lar e das crias", revezando-se.
São seres tímidos e bons companheiros.
Já tentei arrulhar com elas para conhecimento pessoal.
Sacodem a cabeça e não me respondem. Decerto não pronuncio bem.
E também aceito não se interessem pelo nosso idioma que de pouco lhes serviria.
Ou talvez pensem: olha, mais um louco !
Penaliza-me! Assim os homens não conseguem aprender.
Fico por aqui e não me digam que o texto não é de amor.


Ah, por faltar a flor ? Então aqui fica

sábado, 9 de maio de 2009

Aniversários

Mesmo não parecendo, a mensagem é para ti
a lembrar um dia da semana que amanhã se inicia

Tem o humano o hábito de comemorar uma vez ao ano
Paciência... Não vou contrariar !!!Parabéns, aí os tens
por essa tua passagem e feliz sejas na sequência da viagem.
Meu desejo é bem diferente e não serve a toda a gente
Comemora não ao ano, mês ou dia,
tão pouco à hora, minuto ou segundo
e sim cada vez que respires fundo
de sorriso aflorado, terno, com carinho
a beleza das flores a cobrir o teu caminho
e a sentires o amor de todos os teus amores.
Plena e serena será a jornada na certeza de seres amada.

Pena não ter ensejo de te dar o meu beijo

sábado, 2 de maio de 2009

Como era o amor



Desta vez não há flor, nem o sol posto, é simplesmente o meu rosto e a torção foi sem dor.
Quando eu era jovem, uma mulher bonita podia deixar-me assim.
Chamava-se a isto dar-me a volta à cabeça.
Hoje, infelizmente ainda me acontece, com muito menos frequência e mais exigência.
Com a idade a procura é mais selectiva.
Não basta uma mulher bonita, terá também de ser uma bonita mulher.
E depois, idade e loucura, garanto, mistura explosiva.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A virtude

AMAR significa amar o que é difícil de ser amado, de contrário não seria virtude alguma;
PERDOAR significa perdoar o imperdoável, de contrário não seria virtude alguma;
FÉ significa crer no inacreditável, de contrário não seria virtude alguma.
E ESPERAR significa esperar quando já não há esperança, de contrário não seria virtude alguma.
(Gilbert Keith Chesterton)

E na fantasia corre o sonho pelas estrelas, brincando com a vontade e tornando a realidade em heresia
Tanta virtude em plenitude numa só pessoa, não me soa, confesso.

Fico tristonho.
Sabendo meus olhos já não são o que eram, tive uma ideia, tomei da duvida o beneficio e (como o outro), tentei com candeia, procurei entre escolhos. Nada.
Para meu pranto, nem tal santa nem tal santo.
Perdida fé e esperança, sigo o conselho. Vou esperar e pelo inacreditável aguardar.
Nesta inquietude porventura colherei virtude.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Felicidade

Este de 02.11.06 vem para aqui. Se o amor empresta felicidade,
Sejamos felizes então, de flor no coração
Os meus momentos de felicidade tem sido lampejos.
Suponho por isso legitimo ansiar pela plenitude.
Numa dessas revistecas que tudo solucionam, era prometida a conquista da felicidade em dez passos, com o aval de não sei quantos cientistas e testemunho de outros tantos supostamente felizes e decerto também bem pagos.
Céptico por natureza, não deixo porém de estar aberto à mudança.
Esta atitude e a aparente simplicidade das dez tomas do milagroso milongo, umas diárias, outras semanais, embarcaram-me na experiência, entrando desde logo nas tomas diárias.
As duas primeiras seriam canja.
1) Cortar metade do tempo a visionar TV.
Tirei a ficha da tomada.
Dada a qualidade da programação, estava a usar para adormecer.
Cá me arranjarei e, se necessitar, tomo um soporífero.
2) Tratar duma planta
Isto adoro.
O problema é que trato de muitas e fico receoso do perigo da toma em excesso, mas esperançoso que daí mal não venha
3) Dizer olá a um desconhecido
Teria de sair. Sem hesitar, aperaltei-me e, todo janota contra o meu uso, desci as escadas.
Cruzei-me na porta com um tal desconhecido.
Franqueei a passagem e disse OLÁ.
A primeira decepção. O tipo, carranca afivelada, olhou de soslaio, passou.
Não correspondeu, nem agradeceu a gentileza.
Sem perca de tempo, saí e deparei com uma mulher ainda jovem.
OLÁ, disse eu já ansioso, quando se aproximou.
Não olhou, levantou a cabeça e prosseguiu, certamente convencida que eu pretendia um engate.
A adrenalina começou a borbulhar e fiquei especado.
Entretanto aproximava-se uma velhinha com ar seráfico.
Afivelei o meu sorriso às comissuras, sem receio de mostrar os dentes que alguns já não são meus e, na aproximação, gorgeei o meu melhor dos OLÁS.
Boa. Parou.
Fitou-me compadecida e disse:Tenha paciência. Não tenho trocado.
Não tomo mais nada. O amor pelos outros está esquecido.
Desisto de ser feliz por inteiro, contentar-me-ei com os lampejos.
Dependendo de terceiros, o grau de dificuldade sobe em flecha.
No entanto sem responsabilidade nem garantia de êxito, estou ao dispor para indicar os restantes sete passos.
Pode dar-se o caso sejam mais “felizes” do que eu.