domingo, 29 de março de 2009

Testamento

Outro texto de amor, aqui a lugar próprio,
em vez de repousar no outro canto,
onde dormita está desde 30-07-2006



E ali estava eu com o pé esquerdo pousado naquele belo e fofo solo azul celeste, polvilhado de algodão.
Êxtase e surpresa, não tanto pela inclusa sugestão da morte, mais pela benevolência da paradisíaca sentença.
Todos vamos cometendo erros na travessia e temeroso andava pelos fogos do outro lado, que com o calor não me dou.
Logo me passou na mente a ideia peregrina de, aproveitando o momento, lá pousar o outro pé e dar uma espreitadela.
Nessa querença e com crença, meti o pé direito e no consolo de o pousar... acordei !
Acordei aos pés da cama virado.
Belisquei a coxa e doeu.
Era tudo encenação e travessura de sonho bom.
Dei a volta completa e, paciente, aguardei o regresso da alma que, de seu hábito, tardava a voltar dos devaneios nocturnos para tomar conta deste corpo e prepará-lo para novo dia que de sol era, já alto e vestido a rigor.
Não deixou de ser belo o sonho enganador.
Passe a lisonja da absolvição, não deixou também de ser aviso da certeza do evento.

À cautela, e sem descuido, irei lavrar testamento dos dois lotes que me restam:
- o dos bens, pela natureza emprestados e no percurso moderamente me serviram, vou legar a quem deles cuidar, recomendando o bom uso
- o do amor que me deram, encheu meu coração e deu luz ao tal percurso, esse, que me desculpem, decerto vou precisar e comigo vou levar

sexta-feira, 27 de março de 2009

Amor sem memória

As fotos são obséquio da Ana Honorato, "hospedeira" destas pequenas maravilhas


A força do instinto e da perpetuidade, presente em toda a vida animal, assemelha o conceito humano do amor.
É porventura um amor sem memória, limitado na função e no tempo e, sobretudo, sem preconceitos.
Tomado, entre tantos, o exemplo da galinha coquicha, aqui ao lado, criada em "casa de acolhimento", longe de campos de tortura e extermínio, por aviários conhecidos.
Digamos que, à parte algumas pequenas mordomias acrescidas à natureza, a galinha cumpriu o seu instinto, embora facilitado, nem sequer rejeitando ovos não gerados por si.
Os filhotes saídos há muito pouco do mistério do ovo, tem imediata aptidão para as agruras da vida, necessitando apenas de aprendizagem técnica na procura de alimento, exercícios de defesa e sobrevivência, tais como fuga a espécies predadoras e limpeza da farta plumagem natural e ainda, e por sua vez, predando outros pequenos seres, não esquecendo a segurança e abrigo temporário das intempéries ou temperatura sob a asa protectora.
Capacidades por ela exercidas, com total entrega e desvelo e repartidas igualmente pela prole, sem olhar a quem.
E é tão nobre o exemplo que usamos o termo de "mãe galinha" na suposta exagerada protecção aos nossos filhos.
A seu tempo, ganho o vigor e aprendizagem, seguem o ciclo individual, repetindo, repetindo, aparentemente sem preocupações afectivas, culpas, ressentimentos, nem outros futuros ou passados. E, ainda também aparentemente, vivendo a vida pela vida, ali e agora.
O conceito humano é mais elástico, complicado, duradouro, prolongado por vezes além dos limites razoáveis, na vivência de uma plêiade de sentimentos, afinal apenas morando na falível e perecível memória.
Estando tão em voga os prós e os contras, e feitas as contas, fiquei por aqui a cismar , em face do exemplo, se vale a pena ser diferente.

quarta-feira, 25 de março de 2009

A escalada

Também, também este texto é de amor, amor e desespero, embora não pareça.
Foi inserido em 05-09-2007 no outro canto.
O quadro, acrílico sobre tela 30x40 (o modelo uma foto).






Para conhecer do sentido da vida, havia-me proposto chegar ao topo.
Estou cá em cima.
As expectativas foram iludidas.
Sobre a cabeça a ilusão do azul celeste e farrapos brancos esvoaçando esbaforidos ao gélido bafo do vento.
Nem folha nem fumo.
Nem árvore, nem ave, nem o seu pio.
Afinal aquele sentido havia de ter sido retirado do desafio da escalada e durante a sua superação.
Entre a pregagem das estacas devia ter dado um compasso de espera, olhando em volta, imaginado até as árvores, as aves e os seus gorjeios e talvez até flores.
Na ânsia da descoberta esqueci o sonho, abafei-o, e resta apenas o desespero de não ter caído eu, quando perdi quem me seguia.
Ali, no topo, nada mais resta.
Vou espetar a bandeira da angustia, infeliz marco da minha presença neste lugar insólito e iniciar a facilitada descida, onde encontrarei o sentido do nada.

Amor/Amizade/Amor




Publicou a Maysha um belo texto sobre a amizade, por mim comentado, deixando uma questão.
Era ela a diferença entre amor e amizade.
Ambos os sentimentos integram algo de sublime:
abnegação, presença na ausência, entrega, dedicação e... ah... encontrei uma e se calhar única diferença.
A amizade exige em regra retorno, correspondência e daí o dito de ser amigo de seu amigo.
No amor, aí não.
Posso amar sem barreiras, até mesmo sem conhecimento do alvo desse amor.
Amar até quem não me ama, não me conhece ou me esqueceu.
Só que o amor passeado desta forma, pode exaltar-se e tem de se cuidar do seu chegado vizinho, essa coisa feia chamada de ódio que recuso olhar, sequer de soslaio.
Bom... que se desculpe qualquer coisinha, pois isto pode ser tudo conversa sem justificação, escrita enquanto o meu mp3 me delicia o espírito com as Czardas e os gemidos e exaltação do violino que o afago do arco lhe provoca...

terça-feira, 24 de março de 2009

Dádivas

O amor entre dois seres é como a moeda em equilíbrio, um só todo, faces diferentes. Há que iniciar o movimento giratório para conhecer a outra face, ceder e aceitar.
Na fusão do completo e eterno rodopio parecem iguais não o sendo.
As diferenças esbatem-se, diluem-se

sábado, 21 de março de 2009

Amor, ou falta dele



Tenho aproveitado o meu retiro para reler o outro canto.
Forma grata de rever um passado recente e reflectir sobre a dinâmica do tempo.
Este texto ali titulado "missão impossível", 24-03-2006, falando de amor ou da falta dele, vou ousar repetir para meu gozo, excepcionando o silencio.


Não resisti a colocar esta imagem.
Não terá a ver com o texto.
É contudo bela e repousante e no seu movimento assemelhará o paraíso onde decorre a pequena história de autor desconhecido, colhida num livro de humor.
"S.Pedro acolheu uma boa alma que de imediato lhe pediu ocupação.
--Toma esta colher, meu filho, e vai despejar aquele oceano.
Passados cinco mil anos a alma, missão cumprida, solicitou nova tarefa.
--Toma este garfo, meu filho, e vai aplanar aquela montanha.
Sete mil anos após, cumprida a missão, aquela alma rogava nova tarefa.
S.Pedro, já agastado, exclamou:
--Olha JESUS, se queres trabalho para toda a eternidade vai à Terra e tenta espalhar o amor entre os Homens.
Sorrimos, encerra verdade e tem graça ! Mas que é triste, não resta dúvida

quarta-feira, 11 de março de 2009

Voar... sempre



Este canto vai encerrar por tempo indeterminado pelas razões apontadas no outro canto.
Fica porém mais uma história de amor, não parecendo.
Esta dormitava desde 02-05-06 noutro lado.

PARA LHE VER O ROSTO

VOU TENTAR VOAR

DEPOIS VOLTO


Como prometido, voltei.

Não sendo voar tarefa de somenos, foi todavia o esforço compensado.

Cheguei ao topo em plena noite de luar.

Essa estranha força e a ligeira brisa, emprestavam brilho e beleza à moldura verde daquele rosto. Aqui e ali pérolas de orvalho.

Porque choras ? Perguntei.

Confidenciou-me ser a primeira vez a receber visita humana não hostil e tão próxima.

Havia visto outros, ao longe, montados em estranhas aves, lá onde não se enxerga o rosto.

Confidenciou também a dor da sua imobilidade, quebrada tão somente pelos fortes ventos.

E foi com sonho e tristeza que recordou os tempos em que, frondosa, abrigava os ninhos e as aves, seu deleite de então.

Confiou-me assim a sua solidão e o sonho de poder voar, justificando a forma estranha do seu corpo pelo esforço das vãs tentativas de o fazer.

Trocados os nossos pesares, aconchegámo-nos num doce e longo silencio.

Logo, logo, passada essa pequena eternidade, no afago da despedida, senti que se aproveitava do orvalho para disfarçar o pranto e já no solo deixei o meu abraço naquele tronco sofrido e rugoso, forte e sensível.

Prometi voltar para continuar a ligar a sua solidão à minha, quiçá ficar.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Para ti

Não me seria fácil homenagear a MULHER num dia só
Todos os dias me lembro dela
Deixo aqui a florinha
e quem a merecer que a leve

sábado, 7 de março de 2009

Tu por tudo




Water Effect by Crazyprofile.com

SE O SOL ME BEIJASSE
SE A LUA ME SORRISSE
SE O MAR SUSSURRASSE
OU
SE TU LÁ ESTIVESSES

quinta-feira, 5 de março de 2009

Fazer amor


Outro pescado do meu baú (23-09-2006)
Porque ainda assim penso
Porque de amor se trata...

Vamos fazer amor...

Coisa vulgar de ouvir, no recato de qualquer conversa intima, no autocarro, em bares, cafés e discotecas ou na invasão sistemática com que o pequeno ecrã castiga a nossa casa.
E, aprofundando a pesquisa, mesmo sem recurso ao filme porno, podemos citar algumas frases tais como:
Fiz amor:
no chão da cozinha
na banheira
no tapete
em cima da mesa
com o gato a ver
Entre uma infinidade de outras, e, até por vezes, na cama.
A moral que tiro da história:
O amor fabrica-se, sendo apenas necessário alguma imaginação e a presença mínima de dois artífices, quiçá bastando um se de génio se tratar.
Ora isto causa-me grande confusão.
Havia arrumado na minha gaveta dos conceitos, quase conclusivos, a aceitação de que o amor e o sexo pouco tem a ver um com outro.
E se, por casualidade, amarmos verdadeiramente alguém com quem temos sexo, isso terá de ressaltar da relação no período que decorra entre dois orgasmos não seguidos.
E aqui lhes digo, se o resultado é positivo, então sim é a excepção em que o amor e sexo se aliam.
Não se faz amor, deixamos fluir o amor, somos dois em um.
Na verdade teremos de aceitar que o sexo é servidão imposta pela mãe natureza que astuciosamente criou esse impulso em todos os animais (com o estimulo do prazer) como garante da renovação.
Maldosamente vamos dando a volta e usamos os contraceptivos.
Como não queremos prescindir do prazer e simultaneamente evitar a vileza, mascaramos então o acto, praticando-o abusivamente, muitas vezes, em nome do amor.
Amor é outra coisa.
O amor é dádiva.
Nasce nos lagos profundos da nossa alma e curiosamente não se fabrica.
Ou se tem, ou se é pobre!
Não quero confundir amor com sexo.
Vou manter os meus conceitos até porque também amo algumas árvores e não me vejo a fornicar qualquer delas.
E que isto não seja preconceito !

quarta-feira, 4 de março de 2009

A florinha

Esta, outra história de amor, descansava lá no outro canto desde 15-04-2007.







—Obrigada !


Olhei à volta. Ninguém.
Óptimo, pensei. Agora já não falo sozinho, ouço vozes.
E logo anotei a vantagem de abandonar o monólogo.
O obrigada repetiu-se, e, dessa vez, guiado pelo som, descortinei uma florinha amarela, repousando em berço verde nas fissuras da calçada.
— Obrigada porquê ?
— Não me pisaste. Sabes, sou filha bastarda duma lufada de vento.As minhas irmãs tem sido pisadas ou colhidas e assim fiquei só.
— Não gosto de colher nem de pisar flores.
— Como tu há poucos, por isso vivo nesse medo. Os homens são muito estranhos, mostram-se atarefados, atropelam tudo e seguem sem mostrar compaixão, correndo dum lado para outro.Será que sabem o caminho ?
— Suponho que não.
— Certa vez passou por aqui um sábio que me disse que os homens são contraditórios: Perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. Pensam ansiosamente no futuro, esquecendo o presente e acabam por não aproveitar nem o presente nem o futuro. Vivem como se nunca morressem e morrem como se nunca tivessem vivido. É tão estranho !
— Podes crer. Acham também que praticando os rituais aliviam a sua consciência. Olha por exemplo no que toca a flores. Sem compaixão, colhem as mais belas, atam-nas em molho e depois, quer para celebrar a dor quer a alegria, oferecem beleza morta.
— Por isso vivo em pânico, ainda bem que não sou assim tão bela.
— Pelo contrário, além de seres uma bela flor, consegues também ser uma flor bela, lá onde não se vê, e, toma nota, isso entre os humanos não é fácil. Muitos não passam de encadernação de luxo em obra vã.
Pairou o silêncio e, passada uma eternidade, ela voltou a falar:
— Tu hoje foste a minha luz, o meu sol, quem me dera poder voar.
— Também gostaria de voar. É a liberdade !
— Não só. Quando o sol não viesse a mim, eu poderia ir até ele.
Chamei de novo o silêncio e afastei-me para que ela não visse o orvalho nos olhos do seu sol.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O oculto



Desenrolando a foto podemos garantir, quase sem possibilidade de erro, a expansão da beleza.
Uma pequena faísca de duvida poderá subsistir, enraizada em hipotética manobra de composição.
Nas humanas gentes, não é tão fácil assim.
Todos tem a sua face oculta.
No primeiro encontro com alguém somos agradados ou não pelo seu aspecto e postura, quiçá artificial.
É a visão nossa primeira investigadora, com testemunho endossado aos restantes sentidos, todos em ligação directa com o comando central das operações, a mente, supostamente dirigida pela razão, às vezes mal, quando há razões que a própria razão desconhece.
Em cada ser, semelhantes serão estas "armas", diferindo por ventura no uso, causa e efeito da sua aprendizagem de percurso e personalidade.
É depois árdua a tarefa no desbravar da área enrolada, a esconder a arca dos sentimentos, esse tesouro oculto eventualmente recheado de pérolas.
E ainda aqui terá de haver o discernimento e bom senso na escolha das verdadeiras, pois as falsas tem por vezes o condão de bem iludir a razão.
Desta breve luta, em tréguas, pode acontecer nascer o amor... todo o tipo de amor e aí haverá de colher o fruto, sem limites, ignorando o fantasma do tempo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

De cabeça perdida

Esta, também história de amor e também a dormir no outro canto, onde tinha o nº 31, desde 14-08-2006, aqui a trago para o panteão do amor.


O Eduardo nunca fora de grandes ou continuados amores. Cerebral, supervisionava. Dizia ele, pisava levezinho não fosse atolar-se em areias movediças. Dizia-lhe eu, para não brincar com o amor, sobretudo o dos outros.
Mas ele petiscava amor, alheio ao perigo da intoxicação.
Era no fundo um poeta ! Amava o amor !
Idealista, na busca do improvável, diria do impossível.
Disfarçava as suas ilusões em banhos de lógica e cinismo. Sofria...
Amante era do belo e passava largas horas em contemplação.
Sorte ou azar o seu, certo dia, refastelado numa esplanada, admirava o sol, nu e alaranjado, no horizonte a mergulhar em lençol azul cristal. Alguns flocos de nuvem, tal espuma, emprestavam vida ao mergulho.
Minutos ou eternidades depois, entre essa maravilha e os seus olhos, estacou uma linda mulher, sorrindo.
Conheço o Eduardo. Sorriso retribuído, convite à mesa, uma bebida, curiosidade tremenda em saber, condição essencial, se além da beleza aparente, ela seria também uma mulher linda.
E, de blá-blá em blá-blá, o Eduardo estarrecia pelo imprevisto.
Pensamentos, ideais, afinidades preenchidas. E sobretudo perfeita beleza interior.
A Diana, de seu nome, mulher com capacidades e qualidades a permitir-lhe, finalmente, pisar qualquer tipo de areia, afoito e sem receios.
Bebidas esgotadas, disse-lhe um “não fuja” e foi ao bar já ansiando ao retorno.
Passados alguns minutos de impaciência voltou à mesa e à desilusão.
O sol não deixara rasto, a água era agora azul negro.
A Diana desaparecera !
Perdeu a cabeça...E desde então, de cabeça perdida e sem ver, ali vai com frequência, no mínimo para tentar separar a realidade do sonho.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Eficácia da candura

Dos cinco aos setenta



- Achas que posso arranjar namorada ?
- Sabes, não estou preparada para outra avó, mas podes
- Pois, mas não é fácil...
- Ah, é verdade, tu não andas na escolinha . Olha, se vires alguém na rua de que gostes, pergunta-lhe se quer namorar .................longa pausa ...................e se ela disser que tem namorado, procura logo outra pois não tens muito tempo.

As riscas

Quando as rugas ainda são riscas:
- Que idade tens ?
- Cinco, porquê ?
- Ah, mas eu sou mais novo do que tu !!!
- Ai não és não !
- Não sou ? Porquê ?
- Porque tens riscas na cara e a minha é lisinha.
Mais tarde as riscas passam a rugas... e quebra-se o encanto...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

As sandálias


Este texto dormia no meu outro canto desde 6-10-06 e porque duma história de amor se trata, arranjei-lhe cama neste outro canto, ao amor destinado.

Continuaria enrolado no sonho, não fora aquela batida persistente.
Abri um olho e accionei os outros sentidos.
Levei tempo a rever-me.
Fazia fresco, era manhã.
Enrolado continuava porém no cobertor, de que perdera o hábito naqueles últimos meses de verão.
O ruído continuava como cão a pedir guarida. Teve de ser.
Separei-me da manta e, em pelota, assomei à janela.
Tudo estava explicado.
O inverno chegara às portas da cidade e, para reconhecimento, mandara avançar os vanguardistas. Ali estava o Outono e os inseparáveis ajudantes: o chuvisco e o vento ligeiro.
As folhas secas, apanhadas de surpresa, esvoaçavam aflitas, sem destino, sacudidas do torpor morno dos últimos dias de Estio.
Aqueles arautos avisavam os humanos da cessação quase imediata da mordomia da estação quente.
Tempo de trocar de fardamentos, o que me levou de imediato à relação próxima dos meus pés e das sandálias. Que seria delas ? Já me compadecia a interrupção daqueles amores.
Não riam. Recorda-me bem aquele dia de inicio de verão quando estaquei junto à pequena montra da sapataria na intenção de encontrar algo mais leve do que as botas de inverno.
E elas, as sandálias, lá estavam, num cantinho, pela humildade ressaltando entre outras, sem arrebiques, simples, pele de mel, macias, a prometer caricias de que os meus pés andavam ávidos e a lançar-lhes olhares gulosos a que eles não foram insensíveis.
Antevi problemas, tentei arredar-me na fuga ao compromisso.
Todavia eles, por si, encaminharam-me à entrada da pequena loja.
Daí a enlaçarem-se, foi um tiro.
Não sei dizer de quem foi a iniciativa, fundiram-se de tal forma, dois em um, só possível num amor de primeira vista.
Cativaram-se e aceito. Elas tinham tudo o que uns pés cansados do percurso podiam desejar, simultaneamente macias e firmes, delicadas mas justas, aceitando as diferenças, completando-se.
Nem sequer discuti na minha plena incapacidade de os separar.
Paguei, deixei as velhas botas e eles vieram felizes na experiência daquele amplexo, estudando-se e entregando-se.
A partir daí. Que posso eu dizer ? Foi a loucura ! Não se desligaram mais, excepção a banhos e dormir que aí opus felina resistência.
Porém de noite os pés viviam agitados pela breve separação e elas, junto à cama, ansiavam pelo raiar do dia e por aquele que era o meu hábito de ir ver o sol a vestir-se.
Novas andanças, novas descobertas, novos enleios.
Como vou eu agora convence-los que tudo acabou ?
Enfim, terá de ser, já venho.
Estou de volta. E venho perplexo... A situação foi aceite, compreenderam que nada é eterno, que foram privilegiados porque tiveram e isso nunca estará perdido e acrescentaram um pedido. Gostariam num dia ou outro de sol, sempre que possível, unirem-se relembrando aquele verão jamais esquecido.
Doçura e amor. Lindo de doer.
E SE OS HOMENS CONSEGUISSEM SER ASSIM ?

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Amor e desejo

Amor e desejo são coisas diferentes.
Nem tudo o que se ama se deseja e nem tudo o que se deseja se ama
Miguel Cervantes

De tão assertivo arreda a discussão.
Até porque o desejo por vezes implicita posse e isso não cabe no amor.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Verdadeiro amor


E há quem não acredite em fantasmas

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Queixas


Pese embora o alerta implícito no texto, algumas queixas foram recebidas por utilizadores do doce de amor, designadamente dos que tiveram por bem a pitada de sexo usar.
Dos sete ingredientes principais não há noticia de sequelas, mesmo quando usados de forma inadequada.
Todavia, em casos de abuso de consumo, poderão resultar algumas atitudes, como abraçar árvores , falar com animais, ou dizer olá a desconhecidos, coisas não de estranhar em seres demasiado sensíveis, indicando que do doce constam todos os ingredientes, na medida justa e bem misturados.
O enviesamento acontece quando o utilizador entende usar a pitada de sexo sem acautelar os efeitos colaterais ou em dose excessiva.
A principal sugestão é preparar doce para dois, de preferência com alguma afinidade de paladares, e a quantidade tem de ser tal que permita, na toma , atingir o êxtase no justo ponto.
Pode acontecer porventura, por preparação inadequada, a dose não estar no ponto para ambos
Por outro lado, quando o resultado é demasiado satisfatório, pode provocar, em alguns casos, a influencia maligna da paixão, tida por efémera mas porventura inibidora da razão, especialmente quando atinge os pontos sensíveis do ciume e mania possessiva.
Por tal é aconselhável o máximo cuidado na opção das quantidades e sobretudo na escolha da pessoa para quem se prepara o doce.
Ah esquecia.
A vela, uma ou mais, e outros adereços ambientais, não sendo indispensáveis, à evidência favorecem o valor do produto.
Bom apetite !

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Da ternura


Alguém que me ama, na sua límpida e cândida ternura, perguntou se não me sentia triste por viver só.
Respondi que não estava só porque a guardava no meu coração !

Nota: Sendo de amor, o tema do bem me queres, não resisto a transcrever aqui este texto com que há alguns anos iniciei o meu primeiro blog, então virado à solidão e mansa loucura (cantodocarlos.blogspot.com)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Doce d'amor


Nesta altura do campeonato e a mim que ando nas nuvens, pediram-me, nem sei porquê, uma receita de doce d'amor.
Não gosto de comer, nem sequer sou dado a estas coisas da culinária.
Mas enfim, pela simpatia por quem fez o pedido, vou tentar este desafio, declinando desde já qualquer responsabilidade na qualidade do produto final.
Aí vai.
Ter à mão os seguintes ingredientes, mesmo não venham a ser utilizados:
1.TERNURA De boa safra, validade garantida, de preferência colhida no fundo da alma em noite de luar (conterá decerto alguns grãos de carinho, meiguice, entre outros)
2. HUMOR, a substituir o sal, de cores sólidas e sem toxicidade, com boas e sãs risadas.
3. INTELIGÊNCIA, a colher nos campos do espírito, aproveitando o seu melhor, o raciocínio, e separando o joio, como raivas, iras e outros daninhos
4. ENTREGA, não é fácil de encontrar e pela sua raridade é muito apreciada, não pode conter produtos da estirpe das exigências.
5. ACEITAÇÃO, não há docinho d'amor sem ela. Avisa-se da possibilidade de alguns amargos, no fundo essenciais e anulando-se na troca dos reciprocos.
6. TOQUE. Ah o toque, imprescindível, necessitando de cuidado especial por confusão com a ovelha ronhosa do seu irmão. Tocar e apalpar são diferentes, como de noite ao dia.
7. DISPONIBILIDADE, todos conhecem e infelizmente é produto quase ausente do mercado
Para não pecar por excessivo, paro por aqui.
O docinho tem de ser trabalhado em fogo brando, com muito cuidado, misturando os vários ingredientes em dose própria à medida do gosto do consumidor e das suas sensibilidades.
Em principio pode ser servido a qualquer pessoa que tenha o dístico de AMIGO, ou mesmo a outros seres e até a coisas.
Em casos muito especiais, e só nesses, pode aditar-se uma pitada de sexo.
Nesta situação, e se todos os ingredientes estiverem na dose certa, pode ser viciante, pelo que se recomenda extremo cuidado e ponderação.
A preparação não está patenteada.
Já experimentei. Dá prazer e sofrimento.
Cuidem-se !

domingo, 18 de janeiro de 2009

Amar é dar


O amor é umCor do textoa actividade, não um afecto passivo; é um acto de firmeza, não de fraqueza...é propriamente dar, e não receber.
(Erich Fromm)


Sendo este pensamento, linear, puro e quanto a mim correcto, há que entender que o amor nada cobra, nada exige, quase se esgota na dádiva.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Pelo caminho



Pelo outro caminho tenho deixado alguma prosa.
Curta e para mim algo saborosa.
Sendo pequenos bagos de amor,
aprendi como é dificil reescrever sentimentos.
Aprendi também, ao olhar coisas belas,
não retirar ternura às singelas
e daí o gozo de reler belos momentos.
Por isso e para mim vou linkar esta
para a ter mais à mão e não perder dela a razão
AÍ VAI

sábado, 20 de dezembro de 2008

Amor


Existe um problema grave no entendimento humano.



Duma pequena pesquisa da palavra AMOR em diversos idiomas, obtive este desastroso resultado:


Обичам, love, liebe, láska, kjærlighet, amore, liefhebben, miłość , αγάπη , 愛, ljubezen, любовь , yêu, 사랑, kärlek, प्यार, cinta


E, no fundo, uma palavra da treta para significar uma reacção química.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Nas nuvens

Amar não é mais que morrer em si para renascer no outro.(Autor desconhecido)
A intenção era criar um canto para falar de amor.
Por pessimista, a primeira tentativa de titulo foi obviamente: Mal me queres.
Já se tinham lembrado disso e negaram-me a vantagem.
E por bem...
Tentei a medo o ritual dos unilateralmente apaixonados: malmequer, bemmequer, muito, pouco...nada.
Desfolhei, desfolhei, desfolhei
Foram todos a meu favor e espantado me quedei.
Arrisquei por isso: bem me queres, porque dizem para aí ser a esperança resistente.
E vou pairando nas nuvens.